Os Discípulos de Jesus

No século II começaram a circular, em número cada vez maior, "Evangelhos" atribuídos aos apóstolos, ou a discípulos destes, ou mesmo de simpatizantes dos ensinamentos que, na verdade, atingiam e comoviam o povo na sua credibilidade.

O apologista Taciano (sírio, 120-170) reuniu os textos dos atuais quatro Evangelhos, ditos canônicos, para compor uma harmonia evangélica, o que mais favorecia a tendência histórico-biográfica do que à própria mensagem de Jesus.

Os Evangelhos sinóticos, Mateus, Marcos e Lucas, cobrem apenas alguns meses da vida de Jesus, sem narrativa coerente. Nenhum acontecimento da sua vida pode ser datado com precisão. O único Evangelho que localiza algum acontecimento histórico é o de Lucas, ao relatar o início do ministério de João Batista (L.3:1-2). Diz ainda que Jesus tinha cerca de trinta anos ao começar suas pregações (3:23), porém nada diz sobre suas atividades após os doze anos de idade, ocasião em que se perdeu dos pais entre as aglomerações que afluíram a Jerusalém para as festas tradicionais. (L. 2:39-52). Quando em Mateus, 13:55, diz: " Não é este o carpinteiro, filho de Maria, e irmão de Tiago, e de José, e de Judas e de Simão. E não estão aqui conosco suas irmãs? E escandalizavam-se nele".

Isso dá a entender que Jesus era bastante desconhecido na sua terra, e o que dizia era motivo de escândalo.

Quando o chamam de carpinteiro, talvez fosse porque o seu suposto pai, José, era carpinteiro e não por que exercesse ele a mesma profissão que, do contrário, o tornaria bastante conhecido, já que a sua cidade não passava de uma pequena povoação, com poucas dezenas de casas e habitada por gente extremamente pobre, pois estava afastada das rotas que uniam os grandes centros populacionais da época.

Lucas não foi discípulo de Jesus, a quem não conheceu. Supõe-se que fosse médico, porque usou de alguns termos usados em medicina, possuindo certamente boa instrução, do contrário não teria sido aceito como discípulo por Paulo, fariseu bastante orgulhoso e que desprezava os verdadeiros discípulos de Jesus, chamando João e Pedro de ignorantes e de idiotas, (Vulgata-Aprovada por Sixto V e Clemente VIII: -" Videntes autem Petri constantiam et Joannis, comperto quod homines essent sine litteris, et idiotæ, admirabantur et cognoscebant eos quoniam cum Jesu fuerant (Atos 4:13) e entrando em constantes atritos com eles (Atos 15:39: - “E tal contenda houve entre eles, que se apartaram um do outro”).

Para se fazer uma melhor apreciação de uma obra, preciso se faz conhecer, antes, os seus autores. Ninguém aceitaria sem reservas, uma suposta história do mundo helênico escrita por um pastor ignorante dos montes de Corinto, ou história do Egito, por um desconhecido cortador de pedras das longínquas pedreiras do sul de Tebas.

Os discípulos de Jesus eram naturais da afastada Galiléia, província pobre e pouco habitada, nos limites da Palestina com a Síria. Betsaida e Cafarnaum não passavam de pequenas aldeias de pescadores que viviam uma economia de subsistência. Estando distantes dos centros mais populosos, o produto das suas atividades não era exportado, razão da não existência de empresas de vulto que pudessem empregar mão de obra.

Os proprietários de pequenas atividades, tanto eles quanto seus filhos, só tinham acesso a parcos recursos de instrução, quando possível, e só ministrada pelos sacerdotes, isso exclusivamente nos locais onde havia templo judaico.

Para se focalizar melhor o ambiente, compare-se com uma aldeia de pescadores nas margens de um lago no interior do país: pequenas choupanas abrigando uma população pobre e ignorante, em constante convivência com as necessidades mais rudimentares e em constante estado de sub-nutrição. É justamente nesse meio que surgem os curandeiros e feiticeiros milagreiros que conseguem uma certa ascendência entre a população inculta.

Há bem poucos anos surgiu em Goiás uma "santa" Manoelina de Coqueiros, que arrastou imensas romarias para o interior daquele Estado. E’ no sertão do Ceará, pobre e inculta região interiorana que a " santidae" do Padre Cícero arrasta milhões de sertanejos ignorantes de diversos Estados, em busca de curas milagrosas.

Na opinião desses pobres romeiros, o Padre Cícero é verdadeiramente um santo e proclamam seus milagres com a mesma convicção com que os cristãos acreditam nos milagres de Jesus e dos Santos, convicção esta explorada por sacerdotes que se enriquecem à custa da ignorância dessa pobre gente.

Aqui, no Estado do Rio de Janeiro, numa pequena localidade chamada Porto das Caixas, toda a economia local gira em torno de uma imagem que, milagrosamente chora com lágrimas de verdade ou de sangue. Se, no local, alguém disser que aquilo é uma farsa, certamente será linchado pelos devotos fanáticos.

Foi em ambientes como esses que surgiram Jesus e os seus discípulos. Pedro e André estavam lançando suas redes quando um estranho se aproxima e os convida para saírem juntos, e perambularem sem destino certo. A pesca não era rendosa senão o suficiente para que não morressem de fome, portanto, seguir um estranho ser-lhes ia indiferente, pois a alimentação parca em qualquer circunstância seria obtida. Pedro era um pescador tão humilde que às vezes pescava nu (João, 21-7 : “ Então aquele discípulo a quem Jesus amava disse a Pedro: É’ o Senhor. E quando Simão Pedro ouviu que era o Senhor, cingiu-se com a túnica (porque esta nu) e lançou-se ao mar”. Mais tarde foi o discípulo mais importante e de mais responsabilidade de Jesus que, no entanto o chamou de Satanás (Mat.16:23 -Arreda-te de diante de mim, Satanás, que me serves de escândalo”, e de traidor (26-34: ”Em verdade te digo que, nesta mesma noite, antes que o galo cante, três vezes me negarás”).

Fossem eles indivíduos de responsabilidades, comprometidos com um trabalho certo, agradeceriam o convite do estranho, mandando que seguisse o seu caminho. Porém nenhum compromisso os retinha, e resolveram seguir o desconhecido, mesmo abandonando seus lares.

Logo a seguir encontram João e Tiago que pescavam em barco do seu pai e, convidados para uma missão indefinida, abandonam tudo e se juntam aos três. Certamente foram feitos cientes de que seriam pregadores de uma nova doutrina a ser anunciada pelas aldeias da Galiléia, junto ao povo pobre. Na época existia a seita dos "Essênios", também de pregadores ou profetas, como era hábito entre o povo judeu, escravizado e espezinhado pelos conquistadores romanos. Não exercendo atividade remunerada, eram alimentados pela caridade do povo, que dividia com os peregrinos a miséria a que eram submetidos.

João Batista, a quem Jesus chamava de o maior profeta, alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre (Mat.3:4) e fazia suas pregações no deserto onde os ouvintes não deviam ser numerosos. Isso dá a entender que o profeta não tinha profissão e, como gafanhotos e mel silvestre não são encontrados todos os dias, sua subsistência seria provida por mendicância ou pelo que pudesse encontrar nos monturos, disputando com cães e mendigos o que pudesse sobrar da mesa, mesmo daqueles que quase nada tinham. João Batista não devia ser uma pessoa de juízo perfeito, do contrário, pobre como era, não poderia proclamar pelas ruas atos pouco recomendáveis dos poderosos, como Herodes, tetrarca da Galiléia, portanto a autoridade máxima, que o fez prender e degolar.

Pois foi nesse "profeta" que Jesus se inspirou, tanto nas pregações, quanto na escolha dos seus seguidores. Jesus, pobre profeta da Galiléia, se insurgia contra os membros do clero, detentores do poder sob tutela dos romanos, apodando-os de "serpentes, raça de víboras" (Mat.12-34 e 23-33), da mesma maneira como João Batista, também, os chamava. (Mat.3:7), portanto, eram ambos irreverentes para com as autoridades.

Em outra oportunidade, ao passar pelo posto fiscal dos arrecadadores de impostos, uma espécie de alfândega, pois ali não se processava qualquer importação ou exportação que exigisse uma repartição dessa categoria, encontrou sentado Mateus. Não se menciona que fosse funcionário daquele posto fiscal; poderia estar ali a espera de alguém que necessitasse de algum serviço que lhe pudesse proporcionar algum ganho. Jesus vendo-o, convidou-o para fazer parte do grupo, no que foi prontamente atendido. Teria Mateus, como possível funcionário público, abandonado suas atividades com salário garantido para acompanhar um estranho sem qualquer promessa de atividade lucrativa? Ou seria ele, também, um deserdado da sorte, passando necessidades, que seriam as mesmas, tanto ficasse ali parado como perambulando pelas estradas?

A aceitação de Mateus para a vida errante a que fôra convidado, é bastante estranhável. Como no "seu" Evangelho fala de si mesmo (embora não use a primeira pessoa), que, ao aceitar o convite de Jesus, levara-o, bem como a publicanos e pecadores, para a sua casa, para comerem e beberem em comemoração a algo, dá a entender que era uma pessoa de vida estabilizada, e tinha recursos para dar recepções. Essa comemoração era em razão de que? Teria achado digno de festa seguir um estranho que lhe era completamente desconhecido?

Como poderia ele abandonar sua casa, sua família, para, sem dinheiro, sem bordão, sem alforje, com a única roupa do corpo, seguir um estranho andarilho, a quem nunca vira, para passar a uma vida errante, na companhia de mendigos, pregadores de uma doutrina desconhecida e que conflitava com as leis judaicas?

Encontrar entre desocupados outros companheiros não foi tarefa difícil. O país estava ocupado por legiões romanas, não porque a região fosse rica e de interesses econômicos, e sim porque estava meio caminho entre as potências da época: ao norte os hititas, babilônios e persas; ao sul pelo poderoso Egito. O povo judeu sempre foi tenaz e lutador devido ao seu passado de sofrimentos e ocupações estrangeiras. Sua história sempre foi fantasiosa ao dizerem que eram um povo escolhido por Deus, a não ser que o fosse para cobaias para testes da sua resistência. Foi escravizado no Egito por quatrocentos anos; sob o reinado de Cusan-risathaim, da Mesopotâmia, oito anos; dos moabitas, por dezoito anos; dos cananeus, por vinte anos; dos midianitas, por sete anos; dos filisteus, por dezoito anos; novamente pelos filisteus, por quarenta anos; pelos babilônios, quarenta anos; depois pelos gregos e, no tempo de Jesus, pelos romanos.

Se realmente os judeus foram escolhidos por Deus, certamente o foram para provar a sua resistência ante uma vida de perene sofrimento.

O domínio sob os romanos não era aceito pacificamente. Grupos revoltosos se organizavam constantemente para fustigar os invasores. A repressão sempre era violenta com o sacrifício de muitos judeus para cada soldado romano assassinado. O povo não tinha sólidos meios de subsistência, razão das levas e levas de desocupados que perambulavam pelas estradas. Jesus, surgido nessa época, era identificado como um possível "messias" e não foi difícil conseguir seguidores, embora não pregasse uma resistência a mão armada. Muitos dos seus seguidores se decepcionaram após a sua morte, conforme Lucas diz, em 24:21:- "E nós esperávamos que fosse ele o que remisse Israel.... Não só Jesus era apontado como possível "messias". Theudas reuniu um grupo de quatrocentos revoltosos, bem mais do que os doze de Jesus, e seu messiato foi de curta duração, sendo todos passados a fio de espada. Logo depois surgiu outro "messias": Judas, o galileu, que levou muito povo após si e foi, também, derrotado e sacrificado. (Atos,5: 36-37).

A vida errante de Jesus e seus discípulos não lhes era fácil, pois ele recomendava que não levassem consigo nem bordões, nem alforje, nem pão, nem dinheiro nem duas vestes.(Luc.9:3). Alem dos doze discípulos, era acompanhado por um numeroso grupo de mulheres: -" Madalena, Joana, Suzana e muitas outras que os serviam com suas fazendas".(Luc.8).

Como seriam essas mulheres? Teriam abandonado seus lares, seus filhos e seus maridos? Seriam respeitáveis donas de casa, ou seriam como essas desocupadas que perambulam pelas ruas, pelas esquinas, andrajosas, famintas e doentes, a espera de qualquer indivíduo que possa lhes pagar um pedaço de pão?

Esse grupo de numerosos homens e mulheres, mal vestidos, sujos, famintos, percorrendo sem destino certo as estradas, na certa causaria medo e terror nas pequenas povoações. Jesus os prevenia da possibilidade de não serem aceitos nem ouvidos. (Mat.10:14 - “E, se ninguém vos receber, nem escutar vossas palavras, saindo daquela casa ou cidade, sacudí o pó de vossos pés”.).

Seria Jesus o único pregador, ou se revezavam nas pregações? Estariam esses discípulos, pobres pescadores, em condições de interpretar a Lei, quando sua convivência com Jesus não passava de alguns meses, tempo insuficiente para se integrarem na sua doutrina e adquirirem o dom da oratória? Jesus, como quase todos os místicos que arrastaram multidões, conquistou muitos seguidores, convictos, outros mais frívolos e teve, também, os seus apóstatas e renegados.

Dentre os discípulos de Jesus apontam-se alguns dentre todas essas categorias.

Mateus e João foram convictos: fizeram o seu apostolado seguindo, no possível, os ensinamentos de Jesus. Pobres pescadores e, possivelmente despreparados para dar por escrito seus testemunhos, ditaram a outros, mais capacitados, a tarefa de comporem suas estórias sobre a vida de Jesus. Se não os relataram pessoalmente aos próprios escritores, estes obtiveram os acontecimentos através de terceiros, que talvez já os tivessem transmitido deturpados e diferentes do que havia sido relatado pelo discípulo, omitindo ou acrescentando fatos que julgavam mais, ou menos importantes na vida de Jesus, ou fazendo os "floreados" comuns aos contistas e escritores biógrafos.

Mateus foi o evangelista que mais falou sobre a infância de Jesus. Como, porém, não julgasse que sua narração viesse a ter uma propagação universal -(pois só tinha os judeus como destinatários)- e não pensando que seu Mestre viesse a ter a sua pessoa divinizada e mesmo transformado em Deus, contou o que soube sobre sua infância. Não omitiu lendas sobre acontecimentos fabulosos, milagres absurdos e inadmissíveis.

Assim, seu primeiro relato foi repudiado, e seu Evangelho primitivo, em hebraico, foi recusado pelos primeiros cristãos, e dado como apócrifo.

Uma segunda versão, agora em grego, surgiu entre os anos 70 e 80, já escoimada dos excessos da sua primeira apresentação.

Parece que, na época, não se dava muita importância sobre o que, hoje, se considera de suprema relevância no que concerne à legitimidade das origens, pois, conservaram no seu Evangelho a estória do nascimento de Jesus: o repúdio de sua mãe pelo esposo, ao descobrir que ela já se encontrava grávida, e ter-lhe mentido ocultando tal fato relevante para os judeus.

Isso foi um grande lapso dos primeiros escritores da história atribuída a Mateus, fato que foi observado e omitido pelos relatos dos outros evangelistas, que se calaram sobre o lado pouco louvável da vida da mãe de Jesus.

Segundo Mateus, a doutrina de Jesus era para ser difundida exclusivamente para os judeus. Jesus só se interessava pelo seu povo, ameaçado de ser obrigado a adotar outras doutrinas e outros deuses do que chamavam paganismo. Em 10:6, diz -"...mas ide às ovelhas perdidas de Israel" e, em 15:24 reafirma: -"Eu não sou enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel."

Em 21:18 o Evangelista conta a estória pouco edificante sobre a cólera de Jesus ao não encontrar frutos numa figueira, fora da época, cólera essa em desacordo com o espírito divino que se lhe quer atribuir.

Jesus praticou um milagre negativo ao secar uma figueira por não ter frutos fora de época. Milagre mais surpreendente e mais condizente com o caráter que lhe atribuem, seria tê-la feito frutificar instantaneamente, dando mostra do seu poder e aliviar a fome de que estavam acometidos.

Outro milagre, oposto ao citado, ocorreu quando foram cobrar imposto de Jesus, que, não tendo dinheiro, fez com que este aparecesse na boca de um peixe. (Mat. 17:26).

Marcos não foi discípulo de Jesus. O seu Evangelho, ou o a ele atribuído, teria sido orientado por Pedro e tem início com referências a João Batista, que fazia suas pregações no deserto, quando pregava o batismo da penitência para remissão dos pecados.(Mc.-1:4) O número de ouvintes no deserto não devia ser muito grande.

Nada diz, porém, sobre o que João pregava, a não ser que o fazia às margens do Jordão.

João possivelmente tivesse sido seguidor da seita dos "essênios", que pregavam a extrema pobreza, adotava o batismo para seus neófitos, hábito aliás, oriundo de época remotas, tanto na Babilônia, Caldéia, como no Egito, não havendo nenhuma referência a perdão de pecados. O batismo era uma espécie de juramento ou compromisso no ato da filiação a uma ordem ou doutrina. Nada consta se a liturgia do batismo era em nome de um Deus ou de uma divindade.

Marcos relata muitos acontecimentos da vida de Jesus, porém não deixa de focalizar fatos que o dão com certa agressividade e como desrespeitador da lei dos judeus.

A narrativa da invasão de uma propriedade num sábado, de onde se apropriaram indevidamente de produtos agrícolas pertencentes a lavradores locais (Mc.3:23-28), provocou dois incidentes graves.

O primeiro foi de desrespeito ao sábado, dia sacratíssimo para os judeus (Ex.20:10, Deut.5:14 - “Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus; não farás nenhuma obra, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem a tua besta, nem o teu estrangeiro, que está dentro das tuas portas”), cuja inobservância era castigada, até, com o apedrejamento do transgressor.

O segundo foi por infringir os códigos que protegem as propriedades na lei civil, e na lei mosaica (Ex.20:15 e 17). Essa infração poderia ser classificada como invasão seguida de furto.

Esse evangelista menciona outro acontecimento, quando uma multidão se aglomerava dentro de uma casa, onde se encontrava Jesus, e não havia espaço nem para se alimentarem. Essa reunião poderia não ser muito amistosa para Jesus, pois seus familiares saíram para o prender, (ou para o livrar do povo) dizendo que ele, Jesus, estava fora de si. Com isso vê-se que Jesus, à vezes, procedia como irresponsável, devendo ser contido em seus impulsos.

Marcos nunca considerou Jesus como um ser divino, e muito menos como um Deus, como é proclamado pelo Catolicismo Romano. Considerava-o como um indivíduo normal imbuído de boas intenções e que pregava uma doutrina de conforto espiritual para o povo sofredor de Israel, acenando-lhe com a perspectiva de gozar felicidades num paraíso após a morte, quando em vida só conhecia o jugo, não só de conquistadores estrangeiros, como também de um clero avaro e corrupto. Em 12:29, Marcos, diz: -"E Jesus respondeu-lhe: o primeiro de todos os mandamentos é: "Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor".

De acordo com os Concílios da Igreja Católica, Jesus deveria ter dito: -"Ouve, Israel, eu sou Deus e único Senhor, juntamente com o Padre e o Espírito Santo". ( Houvesse proclamado dessa maneira, certamente teria sido lapidado imediatamente como blasfemo).

Marcos dá a entender que os milagres de Jesus eram oriundos de auto-sugestão ou da fé dos crentes. Ele, Jesus, tinha limitados os seus poderes de provocar milagres, tanto que na sua cidade "não podia fazer maravilha alguma somente curando alguns enfermos, impondo-lhes as mãos." (Mc..6:5). Isso está de acordo com outro pronunciamento em que dizia: "se tiverdes fé, transportareis montanhas". Será que Jesus não teve fé em si próprio ao não conseguir fazer milagres em Nazaré? Ou seus enfermos não a tiveram suficiente para receberem a almejada cura?

Lucas não foi discípulo de Jesus, nem o conheceu pessoalmente, assim não foi testemunha ocular dos fatos que narrou. Obteve muitos elementos do seu "mestre" Paulo, de quem foi discípulo e companheiro em viagens de pregações. Consta que Paulo tenha visitado Maria, mãe de Jesus, em sua modesta residência em Éfeso, na Ásia Menor, onde passou a residir em conseqüência das perseguições dos sacerdotes do Templo, que abominavam os seguidores de Jesus, dando-lhes implacável perseguição.

Paulo, membro influente do Templo, foi um sanguinário perseguidor dos adeptos da nova seita pregada por Jesus. Foi responsável direto pela morte de Estevão, que é considerado pelos católicos, oficialmente, como o primeiro mártir, embora dezenas de outros tivessem sido mortos ou aprisionados pelas perseguições sistemáticas movidas pelo Templo.

Paulo, por motivos pessoais, tornou-se apóstata do judaísmo ( ver Cap. 31) e converteu-se à nova seita, para a qual transferiu todo o seu potencial cultural, tornando-se o elemento mais importante do cristianismo, sem o qual, talvez, a doutrina tivesse caído no esquecimento, como muitas outras seitas surgidas antes e depois, e que não lograram sobreviver.

Lucas, como Paulo, seria bastante sugestionável, aceitando influências do sobrenatural com toda convicção. A partir dessa aceitação, não deixou de povoar de "anjos" toda sua narrativa, tornando-a irreal, fantástica e folclórica, só aceita por aqueles que admitem cegamente, sem qualquer raciocínio, o que lhes ditam os pregadores.

Em Atos, l:11, diz que, quando Jesus ia subindo para o céu, na sua ascensão, dois "anjos" surgiram vestidos de branco.

Em l:11, do Evangelho, diz que um anjo apareceu, de pé, ao lado do altar, e teve uma conversa com Zacarias, identificando-se como Gabriel, e fez com que ele ficasse mudo.

Em l:26, um anjo aparece a Maria e diz ser ela bendita entre as mulheres, porém, ela estranhou esse enunciado.

Em 2:9, um anjo aparece a pastores numa noite de inverno, quando inexplicavelmente se encontravam no campo com seus rebanhos, sendo talvez, os únicos em toda a história a pastorearem numa noite gelada, com os campos cobertos de neve. Logo a seguir surge uma multidão de anjos dos exércitos celestiais, e cantam para os pastores: "Glória a Deus nas alturas e paz na terra de boa vontade para os homens", voltando, a seguir, para o céu, numa demonstração de que esses pastores eram figuras importantes no aparecimento de Jesus.

Lucas deve ter feito esse relato com certo constrangimento, pois o fato é inexplicável. Porque esses anjos não apareceram para uma assembléia mais seleta do que a simples e analfabetos pastores? Porque não surgiram no palácio de Herodes, onde o rei passaria a ser incentivador incondicional do "messias" que acabava de nascer? Essa multidão de anjos militares teria outra missão ou foi destacada pelo próprio Deus para impressionar somente a esses humildes trabalhadores?

Em 2:26, se refere ao Espírito Santo, ainda desconhecido dos apóstolos pelo que consta em Atos,l9:2 - “Recebestes vós já o Espírito Santo quando crestes? E eles disseram-lhe: Antes ainda nem ouvimos que haja Espírito Santo!) Apareceu depois a Simeão, que não desejava morrer sem antes conhecer o "messias", e satisfaz o seu desejo, ao ser Jesus apresentado no Templo.

Em Atos, 5:l9, diz que um anjo abriu as portas da prisão onde se encontravam discípulos de Jesus, presos por ordem dos Sacerdotes.

Em 8:26, diz que um anjo apareceu a Filipe e lhe ordenou que fosse para a estrada entre Jerusalém e Gaza, onde encontraria um eunuco etíope, a quem deveria instruir sobre as Escrituras. A seguir o "anjo" seqüestra Filipe.(5:9).

Em 10:3, um anjo aparece a um comandante de tropas romanas de nome Cornélio, e lhe ordena que mande convidar o apóstolo Pedro para a sua casa, para que o batizasse.

Em 12:7, um anjo aparece na cela onde Pedro se encontrava preso, desperta-o, rompe as correntes que prendiam o apóstolo e o põe em liberdade.

Em 12:23, um anjo executa uma missão de extrema importância, com intervenção na alta política da Palestina, matando o próprio rei Herodes, quando, aparamentado com as vestes reais, presidia uma seção no Tribunal.

Em 13:2, o Espírito Santo, pessoalmente (ou espiritualmente?) ordena que mandem Barnabé e Paulo para uma missão em Selêucia, indo depois para Chipre, em missão evangelizadora.

Em 18:9, o Senhor (Deus, ou Jesus?) aparece a Paulo para o incentivar.

Em 23:11, o mesmo Senhor lhe aparece novamente e o manda pregar em Roma.

Esse escrito atribuído a Lucas apareceu por volta do ano 80, conforme consta da Bíblia de Jerusalém, fl. 1277, portanto, já baseado em lendas, 50 anos após a morte de Jesus.

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