Houvesse algum Deus criado ou inspirado uma religião para a humanidade terrestre, certamente a sua criação se estenderia a todos os bilhões e bilhões de planetas habitados, semelhantes ao nosso, esparramados pelo infinito do Universo.
As galáxias, com seus inumeráveis sóis e planetas, habitados, alguns, por seres semelhantes, ou diferentes de nós; uns mais imperfeitos ou mais inteligentes, certamente teriam obtido de Deus o mesmo tratamento que nos dispensou. Esses habitantes teriam formatos idênticos ou diferentes do nosso, pois nada mais somos que pretensiosos e míseros bípedes limitados a viver em superfícies sempre planas, despreparados para uma vida natural como os demais seres viventes.
Esses outros seres poderiam ser trípodes, miriápodes ou gasterópodes. As atmosferas desses milhões de planetas habitados, certamente não teriam a mesma composição da nossa; poderiam nem conter oxigênio, para nós o elemento fundamental. Esses seres poderiam viver em planetas com atmosferas diferentes e, mesmo, serem apulmonados
A esses seres dos diversos mundos, teria Deus imposto as mesmas leis, os mesmos cultos e as mesmas liturgias ditadas a nós pela sua “Divina Inteligência ?”
Teriam ou poderiam esses habitantes ter praticado as mesmas distorções que praticamos, dando origem a milhares de interpretações e seitas, cada qual mais ridícula e absurda, cada qual se dizendo detentora da verdade ditada pelo Deus, talvez, “cara a cara” como consta ter acontecido a Moisés? (Êxodo, 33:11: “E falava o Senhor a Moisés cara a cara, como qualquer fala com o seu amigo”).
Teria Deus mandado para cada um desses planetas um filho “unigênito”, um Jesus Cristo ubíqüo, ou teria feito planetas habitados exclusivamente por seres perfeitos, que desconhecessem o mal ou o pecado, sendo, portanto, mais dignos da sua sabedoria divina?
Se Deus tivesse imposto ou inspirado uma religião para que fosse eternamente adorado, louvado ou adulado por suas criaturas, talvez pudesse até ser considerado um Deus pretensioso, com defeitos de orgulho e vaidade inerentes aos homens.
A criação perfeita sai das mãos de um criador e idealizador perfeito. Toda obra imperfeita, sujeita a reparos futuros, só pode ter sido produzida por um “criador” despreparado. Seria Deus imperfeito ao criar uma humanidade pecaminosa, de que, depois, se arrependeu , sufocando-a em dilúvios e gomorras, guerras, pestes e toda sorte de males?
Seria justo, sabendo que suas criaturas poderiam até ser condenadas ao fogo eterno do inferno ao sabor das vontades, ódios e caprichos daqueles que se dizem seus porta-vozes, seus ministros, seus profetas e fundadores de religiões?
A humanidade não tem condições para explicar ou conhecer os segredos divinos, portanto não tem condições de afirmar que um mal é mal, que um pecado é pecado, já que tudo foi criado pela infinita sabedoria desse mesmo Deus, que sabe até o número de fios de cabelo numa cabeça e que até uma folha de árvore só cai com sua permissão. Deus conheceria o passado, o presente e o futuro de suas criaturas, portanto o pecado que condenaria uma delas, era de seu pleno e antecipado conhecimento e aprovação, e, absurdamente, chegar-se ia à conclusão de que não existe pecado para as faltas que julgamos ignominiosas, mesmo para os mais horripilantes crimes, mesmo aqueles cometidos pela Igreja que em seu nome criou o Tribunal da Inquisição, e que levou à morte com requintes de crueldade a centenas de milhares de suas criaturas. Portanto, esses bispos e frades aos quais atribuímos crimes hediondos por um período ininterrupto de mais de dez séculos, só procederam com o conhecimento e beneplácito desse mesmo Deus! Portanto, são inocentes?!
Para explicar essa esdrúxula perspectiva as religiões atribuíram a Deus a invenção de um “livre arbítrio”, válvula de escape para aquilo que não podem ou não sabem explicar, pois se o fizessem, negariam a pré-ciência de Deus, portanto a sua perfeição.
O atual Papa disse que Deus está fora da compreensão humana e só pode ser admitido através da fé. Sendo assim, é um ser imaginário e irreal. A fé só existe para as coisas improvadas, que não podem ser explicadas cientificamente. Comprovado um fato, ou raciocínio, sai de cena a fé, pois passa a ser certeza.
Prudhome disse que o “Deus dos humanos é a própria encarnação do mal”.
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Outro escritor fez a seguinte proposição: “Suponhamos um momento que um de nós pudesse ter criado um efêmero e lhe dissesse (...sem que ele pudesse ouvir) -Criatura minha, adora-me! O pobre animalejo deu alguns vôos sem pensar em coisa alguma, e morreu no fim do dia.
Um necromante diz ao homem: “deita-lhe uma gota do teu sangue, que poderás ressuscitar a criatura”. O homem faz em si uma picadura, e com o seu sangue ressuscita o efêmero. Que fará o homem?
O que fará, vou dizer-vos, exclama um crente fanático:
- Como o efêmero na sua primeira vida não teve o espírito (ou a tolice) de adorá-lo, acenderá uma fogueira espantosa e nela lançará o desobediente animalzinho, sentindo somente não poder conservar-lhe milagrosamente a vida no meio das chamas, afim de queimá-lo eternamente.
Ora pois, dirão todos: não existe louco furioso que seja tão covarde, tão perverso como este.
- Eu vos peço perdão, cristãos vulgares; o homem em questão não poderia existir, concordo; porém existe na vossa imaginação somente, tão cruel e tão covarde: é o vosso Deus! Assim o explicais.
Os católicos o vêem da seguinte maneira: castiga a humanidade eternamente através de guerras, pragas, doenças e com o predomínio de uns sobre os outros. Faz sangrar seu próprio filho sobre uma cruz para resgatar o seu próprio erro oriundo de uma falta de previsão da sua parte. Criou um “diabo”, seu rival, tão poderoso ou mais do que ele próprio, para enganar o primeiro casal angelical e inocente que viveu na terra.
Não se sente a presença de um Deus bondoso durante a vida. Só se vê iniqüidades; se elas são provocadas pela eventual intervenção do “demônio”, este, então, é mais poderoso que o Deus que o criou, pois o seu poder maléfico se sobrepõe às possíveis bondades do seu antagonista.
Arrependendo-se Deus de haver criado a humanidade, degenerada pela força do mal, mais poderoso que a sua própria vontade, no caso do “livre arbítrio”, prescinde do seu poder de corrigir o mal, reformando o pensamento do errado, infundindo-nos nos cérebros unicamente a propensão para o bem.
Achou, porém, mais fácil afogá-la num “dilúvio”. Para repovoar a terra, preservou uma família cujo chefe era um beberrão e injusto, que amaldiçoou um neto pelo erro do seu próprio filho.
Can, pai de Canaã, viu seu pai Noé nu, após uma bebedeira, e foi contar aos irmãos, certamente zombando, do contrário não teria despertado a ira de Noé. Este, após tomar conhecimento do acontecido, certamente denunciado pelos seus outros filhos, indignado, amaldiçoa seu neto, descarregando sobre ele todo o seu ódio, dizendo: “Maldito seja Canaã, torne-se ele o escravo mais baixo dos seus irmãos”. (Gênesis, 9:25).
Porque não amaldiçoou quem cometeu a indiscrição, e sim a um inocente? Qual a justificativa para esse procedimento de pura injustiça? Qual o sofisma para distorcer o que está escrito?
Não teria sido melhor, depois do “dilúvio”, Deus ter deixado a terra habitada somente por animais, eliminando a humanidade que só desgostos lhe deu, e que, no futuro, se transformaria no maior destruidor de toda a criação?
Baghwan Rajneesch disse sobre o temor de Deus, pregado pelas religiões:
“Temente a Deus é expressão absurda. Se tem medo, não ama. Como pode amar a Deus se sua abordagem básica é através do medo? A partir do medo o amor nunca desponta. A partir do amor, o medo jamais pode existir. Não se pode amar uma pessoa quando se tem medo dela”.
Por séculos afora ensinaram ao homem a ter medo, a temer a Deus, razão por que Nietzch declarou: “Deus está morto.”
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